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O Berrantômetro não faz pesquisa eleitoral. Analisa dados públicos oficiais e pesquisas registradas no TSE, com a fonte em cada card. Estimativa é cenário, não é resultado. Leia o aviso completo

Revista BerrantômetroCrônica · 1º turno

O berrante estatístico e a indústria do voto útil

Quando a pesquisa deixa de apenas medir o eleitor e começa também a participar da formação de sua escolha.

Por Amaury José Rezende26 de setembro de 2026 · 9 min de leitura✎ ARTIGO · OPINIÃOtexto dos autores · não é dado do Berrantômetro
Charge 'O berrante estatístico': numa bancada de TV, comentaristas e políticos sopram berrantes. Legenda do autor: os coronéis tentando reunir o gado eleitoral.
✎ CHARGE · OPINIÃOilustração satírica gerada por IA

Chega a eleição e reaparece uma das instituições mais curiosas da República: a indústria do voto útil. O roteiro é conhecido. Primeiro chegam as pesquisas. Depois aparecem os comentaristas explicando quem “subiu”, quem “derreteu”, quem “tem chance” e, principalmente, quem deveria desistir. Na sequência, instala-se o estado de emergência eleitoral:

“Não desperdice seu voto!”

E começa a tocar o berrante estatístico.

A boiada, devidamente informada sobre margem de erro, nível de confiança e tendência de crescimento, é convidada a seguir em direção ao curral da racionalidade eleitoral. Tudo, evidentemente, em nome da ciência. E aqui começa minha implicância. Não com a estatística. Muito pelo contrário. Talvez justamente porque estatística seja ciência devêssemos respeitar um pouco mais as condições que a própria teoria estatística estabelece.

De 158 milhões para 2 mil

O Brasil possui cerca de 158,7 milhões de eleitoras e eleitores aptos a votar nas eleições de 2026, distribuídos por 5.571 municípios, além do eleitorado no exterior (Justiça Eleitoral).

  • Não estamos falando de um condomínio.
  • Estamos falando de um país continental.
  • O Norte não é o Sul.
  • O interior de Goiás não é a periferia de São Paulo.
  • O sertão nordestino não é a serra gaúcha.
  • Minas Gerais, sozinha, parece um pequeno continente eleitoral.
  • E então aparece uma pesquisa com duas ou três mil entrevistas.

Isso, isoladamente, não invalida uma pesquisa. Essa é justamente uma das virtudes da estatística: uma amostra relativamente pequena pode produzir boas estimativas para populações enormes. O problema é imaginar que basta entrevistar 2.000 pessoas para automaticamente possuir um retrato perfeito de 158 milhões.

Não basta. O segredo está em como essas pessoas foram escolhidas.

Pesquisas costumam considerar sexo, idade, escolaridade, renda, localização e outras características observáveis. Mas o eleitor não é uma planilha de cinco colunas.

Há religião, profissão, situação econômica, cidade, bairro, intensidade da preferência política, rejeição, propensão a comparecer, disposição para revelar o voto, consumo de informação e capacidade de mudar de opinião. E existem ainda fatores que sequer conseguimos observar diretamente.

O próprio Datafolha reconhece que há debate acadêmico sobre a utilização da margem de erro convencional em amostras por cotas. Também explica que uma amostra de aproximadamente 2.500 entrevistas pode permitir determinadas leituras nacionais e regionais, mas não necessariamente análises estaduais sem ampliação da amostra (Datafolha, perguntas e respostas sobre pesquisas eleitorais).

Portanto, a pergunta interessante não é “Quantas pessoas foram entrevistadas?”. É:

“Como elas chegaram à amostra?”

A margem de erro não é uma apólice contra todos os erros

Quando ouvimos:

“Margem de erro de dois pontos percentuais, com 95% de confiança.”

A frase transmite uma sensação extraordinária de precisão. Parece quase uma escritura pública da vontade popular. Mas a margem de erro não captura todos os possíveis problemas de uma pesquisa.

A American Association for Public Opinion Research (AAPOR) destaca que a margem tradicional está associada ao erro amostral e não incorpora automaticamente problemas como viés de não resposta ou erros na identificação de quem efetivamente comparecerá às urnas.

E há uma questão ainda mais delicada. Em amostras não probabilísticas, não existe uma forma simples de calcular a margem de erro clássica; as estimativas de incerteza passam a depender de modelos estatísticos e hipóteses adicionais. A própria AAPOR alerta que pode ser enganoso tratar a margem de erro dessas pesquisas exatamente como se fossem amostras probabilísticas tradicionais.

Traduzindo:

  • Quem recusou responder?
  • Quem não foi encontrado?
  • Quem responde pesquisas com mais frequência?
  • Quem diz que votará, mas não comparecerá?
  • Quem prefere esconder o voto?
  • Quem ainda mudará de candidato?

A fórmula não faz essas questões desaparecerem.

A psicologia motivacional eleitoral: “pense positivo”, “vire a chave”, “não desperdice seu voto”.
✎ CHARGE · OPINIÃOA psicologia motivacional eleitoral: “pense positivo”, “vire a chave”, “não desperdice seu voto”.

Há quase uma psicologia motivacional eleitoral nessa história.

  • “Pense positivo.”
  • “Escolha racionalmente.”
  • “Não desperdice seu voto.”
  • “Vire a chave.”

Daqui a pouco teremos:

Os sete hábitos do eleitor altamente eficaz.

Pesquisa é fotografia, não profecia

Esse talvez seja o ponto mais simples, e mais esquecido. Pesquisas eleitorais medem uma determinada população em determinado período. São fotografias. Não são necessariamente previsões do resultado final.

A própria AAPOR orienta jornalistas a tratar pesquisas eleitorais como um retrato daquele momento, e não como uma previsão determinística do resultado da eleição.

Parece óbvio. Até a pesquisa entrar no estúdio de televisão. Ali acontece uma transformação extraordinária.

  • A fotografia vira tendência.
  • A tendência vira cenário.
  • O cenário vira destino.
  • E o destino finalmente vira conselho:
Pesquisa é fotografia, não profecia: até entrar no estúdio de televisão.
✎ CHARGE · OPINIÃOPesquisa é fotografia, não profecia: até entrar no estúdio de televisão.
“Esse candidato não tem chance.”

Logo depois:

“O eleitor precisa considerar o voto útil.”

Pronto. Fechou-se o ciclo. Primeiro mede-se o eleitor. Depois mostra-se ao eleitor a medição.

Em seguida explica-se que, diante daquela medição, talvez fosse racional abandonar sua preferência inicial. Na semana seguinte realiza-se nova pesquisa para descobrir como o eleitor reagiu à pesquisa anterior. É quase um paradoxo eleitoral:

O instrumento criado para observar o fenômeno passa também a participar do próprio fenômeno observado.

Efeito manada, voto útil e o mercado das probabilidades

Cria, arrecada bilhões e depois diz que as “bets são vítimas dos apostadores”. Aí proíbe!
✎ CHARGE · OPINIÃOCria, arrecada bilhões e depois diz que as “bets são vítimas dos apostadores”. Aí proíbe!

A política moderna passou a possuir uma linguagem curiosamente parecida com a das apostas.

  • Quem está pagando mais?
  • Quem está subindo?
  • Quem está caindo?
  • Quem tem chance?
  • Quem chegou ao segundo turno?
  • Em quem vale a pena “investir” o voto?

Seu candidato preferido pode rapidamente deixar de ser uma escolha política e transformar-se em um ativo de baixa liquidez eleitoral. Algum comentarista informa:

Comentarista — Não coloque seu voto aí. Não vai render.

Logo criaremos o CDI eleitoral. E talvez algum aplicativo ofereça:

Odd de 1,35 para voto útil.

Naturalmente, pesquisas podem informar legitimamente estratégias de campanha e ajudar cidadãos a compreender o ambiente eleitoral. Mas existe uma diferença entre informar o eleitor sobre o cenário e convencê-lo de que sua preferência não deve ser exercida porque outro candidato aparece melhor posicionado.

É nessa passagem que a pesquisa deixa de ser apenas instrumento de informação e pode se transformar em componente da própria disputa.

Se não influenciam, por que alguns países restringem sua divulgação?

Há um fato internacional interessante. Diversas democracias europeias possuem algum tipo de período de silêncio eleitoral envolvendo a publicação de pesquisas. O Parlamento Europeu registra, por exemplo:

  • Itália: publicação de pesquisas proibida nos 15 dias anteriores à eleição;
  • Chipre: sete dias;
  • Espanha: cinco dias;
  • França: restrições próximas ao dia da eleição;
  • Luxemburgo já adotou restrições ainda mais longas para divulgação de pesquisas.

O Parlamento Europeu registra que vários países da União Europeia restringem ou proíbem a divulgação de pesquisas durante períodos de silêncio eleitoral justamente porque existe o entendimento de que elas podem influenciar o comportamento dos eleitores. Outros países possuem modelos diferentes, inclusive restrições apenas no próprio dia da eleição (Parlamento Europeu).

É importante não exagerar a conclusão: a existência dessas regras não prova que pesquisas manipulam eleições. Mas demonstra algo intelectualmente relevante:

Alguns sistemas democráticos consideram plausível que determinadas informações divulgadas imediatamente antes da votação possam, sim, interferir no comportamento eleitoral.

Se pesquisas fossem percebidas exclusivamente como termômetros completamente neutros, dificilmente haveria tanta preocupação regulatória com o momento de sua publicação. O problema, portanto, não é só a estatística.

O Super Zema do Pão de Queijo contra “O Sindicato dos Intocáveis”

Luta dura, no país da “democracia relativa”.
✎ CHARGE · OPINIÃOLuta dura, no país da “democracia relativa”.

A campanha eleitoral também adora construir narrativas cinematográficas.

  • Há o establishment.
  • Há o outsider.
  • Há os tribunais.
  • Há os partidos.
  • Há a imprensa.
  • Há os investigadores.
  • Há o candidato que se apresenta como aquele que enfrenta “todos”.

E, naturalmente, sempre existe a necessidade de um bom cartaz de cinema. O risco começa quando política deixa de ser disputa de ideias e se converte em narrativa permanente de mocinhos e vilões.

Instituições precisam ser criticadas. Governantes precisam ser criticados. Candidatos também.

Jornalistas, institutos de pesquisa, tribunais e empresas não devem estar acima da crítica. Mas democracia também exige separar crítica institucional de torcida organizada. Porque, quando cada lado constrói seu próprio “sindicato dos intocáveis”, desaparece justamente aquilo que deveria decidir a eleição:

A comparação de propostas, resultados e escolhas públicas.

O curral está cheio de personagens

Aqui no Goiás, o negócio é bruto!
✎ CHARGE · OPINIÃOAqui no Goiás, o negócio é bruto!
  • Tem candidato representando o campo.
  • Tem candidato vendendo administração.
  • Tem candidato construindo a imagem de professor.
  • Tem candidato tentando herdar capital político.
  • Tem candidato apresentando-se como gestor antissistema.
  • Tem governo defendendo realizações.
  • Tem oposição denunciando fracassos.

Isso é democracia. O problema aparece quando, antes de o eleitor terminar de avaliar tudo isso, chega alguém com uma pesquisa na mão anunciando:

“Pode parar. Já sabemos quais são as opções viáveis.”

Viáveis para quem? Segundo qual pesquisa? Realizada quando? Com qual desenho? Com quais ponderações? E com quais hipóteses?

Essas perguntas deveriam aparecer com muito mais frequência.

A mula eleitoral: “Dark Horse, o Povo”

Nesta arena não tem inocentes, só vítimas: “o povo”.
✎ CHARGE · OPINIÃONesta arena não tem inocentes, só vítimas: “o povo”.

A caricatura tem uma função antiga na política: exagerar para permitir enxergar melhor. Talvez poucas imagens sejam tão úteis quanto uma mula correndo por uma estrada eleitoral enquanto todo mundo aponta para uma placa diferente.

Direita. Esquerda. Anistia. Continuidade. Mudança. Primeiro turno. Segundo turno. Voto útil. Voto ideológico.

Enquanto isso, o pobre eleitor segura as rédeas tentando descobrir para onde exatamente está indo.

No fim, quem deveria escolher?

Pesquisa é necessária. Estatística eleitoral é ciência. Há institutos públicos sérios, que desempenham papéis importantes na elaboração de pesquisas públicas, base para a construção de políticas públicas. Jornalismo político partidário.

Mas nenhuma dessas constatações transforma uma estimativa em profecia. Talvez a democracia pudesse funcionar numa ordem relativamente simples:

  • O instituto mede.
  • O jornalista informa.
  • O comentarista comenta.
  • O candidato apresenta suas propostas.
  • E o eleitor escolhe.

E, principalmente, sem transformar o eleitor em participante involuntário de uma corrida de cavalos cuja principal pergunta deixou de ser:

“Quem representa melhor aquilo em que acredito?”

e passou a ser:

“Em quem os outros provavelmente vão votar?”

Talvez seja esse o paradoxo final:

No fim, o voto é obrigatório, o título de eleitor é a ferradura e o cidadão, embora bípede, continua sendo tratado como gado.

Escrevi esta crônica a partir de uma inquietação estatística e política: uma coisa é reconhecer a ciência da amostragem; outra é transformar estimativas condicionadas por desenho amostral sem robustez, ponderações e hipóteses em verdades eleitorais definitivas. Entre margem de erro, voto útil, efeito manada e 158 milhões de eleitores, talvez caiba uma pergunta simples:

Quem mede quem, e quem influencia quem?

Publicado originalmente no LinkedIn em 26 de setembro de 2026, antes do 1º turno. Reflexão crítica e satírica sobre pesquisas eleitorais, seus limites estatísticos, sua comunicação e o chamado voto útil. As imagens têm caráter editorial e humorístico e foram geradas por IA.

As imagens desta página são charges: ilustrações satíricas geradas por inteligência artificial. São opinião, não fotos nem registro de fatos.

O berrante estatístico e a indústria do voto útil · Revista Berrantômetro