Bateu no teto
Contamos boi em 5.571 porteiras. O que se vê é capital político gasto, um galpão que encolheu e um Nordeste que já foi votar.

Todo peão de comitiva sabe que boiada se conta na porteira. Não adianta olhar o pasto de longe e chutar “tem uns quinhentos”. O capataz finca o pé no mourão e conta cabeça por cabeça, enquanto o berranteiro vai na ponteira chamando o gado para o outro lado do rio.
Pois foi o que a gente fez com a eleição: contou boi em 5.571 porteiras, uma por município, mais as 145 do exterior. E a conta, porteira por porteira, mostra uma coisa que o pasto visto de longe esconde. O Lula bateu no teto.
Eleitor — Mas como, se ele ainda nem foi pro segundo turno?
Calma, que eu explico. São três coisas: o teto, o capital e o Nordeste.
O teto
Em 2022, no segundo turno, o Lula fez 60.345.999 votos, o maior número da vida dele. De lá pra cá o colégio eleitoral cresceu 1,46%, de 156,4 para 158,7 milhões de aptos. Corrigindo cidade por cidade, o teto dele hoje fica em uns 61,3 milhões. É o tamanho do galpão se ele tivesse mantido o desempenho de 2022.
Teto é a cumeeira: diz até onde dá pra empilhar o feno. Não diz quanto feno tem.

O capital

E o feno diminuiu. No primeiro turno de 2026 o Lula fez 53,9 milhões. Comparando com o primeiro turno de 2022, já descontado o eleitor novo, sumiram 4,35 milhões de votos. Ele perdeu em 5.113 dos 5.571 municípios. Ixi.
Capital político é que nem gado de cria: some rápido e demora anos para repor. Com essa perda, o galpão de 61 milhões vira, na prática, um de uns 57 milhões. E para ganhar a eleição precisa de 59,7.
Do outro lado da cerca, o Flávio fez 56,1 milhões, 4,35 milhões a mais que o pai em 2022, pela mesma régua. A simetria é de novela: o que um perdeu é quase exatamente o que o outro ganhou. A urna mostra o saldo, não diz qual boi pulou qual cerca, mas o saldo é esse. Somando o ganho ao teto do pai, o teto do Flávio vai a 63,3 milhões.

Comentarista — Então os dois podem bater no teto!
Não podem. Os dois tetos somados dão 124,6 milhões; os válidos do segundo turno devem ficar perto de 119,7. Não cabe. Se um encosta na cumeeira, o outro fica no meio do galpão.
O Nordeste

Aqui está o pulo do bezerro. Quem está atrás no primeiro turno costuma ir buscar voto na abstenção, aquele eleitor que ficou em casa tomando tereré. Em 2022 o Lula fez isso: entre um turno e outro, tirou 782 mil votos a mais do Nordeste.
Só que em 2026 o Nordeste já foi votar. A abstenção lá no primeiro turno foi de 18,4%, a menor do Brasil, menor até que a do segundo turno de 2022 (19,3%). Em 1.310 das 1.794 cidades nordestinas, 73% delas, quem ia sair de casa para votar já saiu. A comitiva passou. O curral está cheio.

E com o curral cheio, o Lula fez 259 mil votos a menos no Nordeste do que em 2022. Mais gente votando, menos voto colhido. Ali ele perdeu pouco em proporção, 3,9% (no Sul foram 15,9%), mas o que falta é eleitor novo para buscar. A reserva foi gasta antes da hora, e quem cresceu no Nordeste foi o Flávio: 15% acima do pai.
Onde a perda de capital pesou foi no Sul (−15,9%) e no Centro-Oeste (−14,4%). Pela conta, o Lula já encosta no teto em oito de cada dez cidades do Centro-Oeste e do Norte, e em seis de cada dez do Sul.
Comentarista — E o Sudeste, com toda aquela gente?
O Sudeste tem 15 milhões de abstenções, a maior reserva do país. Mas é onde o Lula tem 39,7% dos válidos. Pescar ali é pescar em rio que dá mais peixe para a outra canoa.
O gado solto

Sobra o eleitor dos outros candidatos: 9,3 milhões de votos do Cury, do Renan Santos, do Caiado, do Zema e companhia. É o gado solto, que ainda não escolheu comitiva.
Para virar, o Lula precisa levar 62% desse gado. Em 2022 levou 30%. Precisaria do dobro da melhor travessia que já fez contra esse adversário, e sem a reserva do Nordeste para ajudar. O Flávio precisa de 38%.

Aplicando a cada município o jeito como aquele município se comportou entre os turnos de 2022, o cenário fica assim:
- Lula: 53.879.538 no 1º turno → 56.841.255 no 2º (cenário)
- Flávio: 56.104.503 no 1º turno → 62.867.528 no 2º (cenário)
Repare: o Lula do cenário termina em 56,8 milhões, colado nos 57 milhões do galpão encolhido. A linha encosta na cumeeira.
Isto é cenário, não resultado.
Eleitor não é boi, por mais que certos políticos o tratem assim, e o gado solto de 2026 não é o mesmo de 2022: naquele ano eram Tebet e Ciro, agora é outra tropa. Pode haver surpresa. Mas, para haver, ela vai ter que vir de onde os números dizem que quase não sobrou espaço.
Na segunda-feira
A estimativa de cada cidade já está no ar, em berrantometro.com.br/estimativa-2t/apuracao: a linha tracejada é o que a gente estimou; a linha cheia é a apuração do TSE, que entra conforme as urnas forem totalizadas no domingo. Onde a gente errar, vai aparecer ali, cidade por cidade, e por quanto.
Até lá, fica a lição do capataz: quem conta boi na porteira não se ilude com pasto bonito visto de longe.