Molusco do Brasil de Paraguaçu e a República do “depois a gente vê quem paga”
No segundo turno, o berrante toca num som ainda mais estridente: benefício novo e de novo, pesquisa virando narrativa e a conta guardada para depois da eleição.

Em Sucupira, Odorico Paraguaçu prometia cemitério. No Brasil de Paraguaçu, o personagem mudou de nome: virou Lula Molusco, especialista em descobrir, sempre no último minuto da reta final da eleição, que o Tesouro Nacional tem um coração de ouro, e a carteira do povo é um poço infinito e, aparentemente, como os brasileiros não têm memória, vivem numa amnésia coletiva, vide os letrados, risss.
E no segundo turno eleitoral, o berrante toca, mas agora num som ainda mais estridente! Ê, boiada! Chega mais que tem benefício novo e de novo!
O eleitor olha para um lado. Tem reajuste. Para o outro, perdão de dívida. Mais adiante, dinheiro para universitário. Na curva seguinte, transporte gratuito. E, logo atrás, uma placa discreta:
A conta será apresentada posteriormente. Não se preocupe, o povo de memória curta do Brasil de Paraguaçu já esqueceu a “picanha” e está sonhando com a promessa do “Monjarito”… Risss.
A diferença entre política social legítima e populismo eleitoral não está em ajudar pobre, estudante, trabalhador ou pequeno empreendedor. Está em quando, como, com qual fonte de recursos e, sobretudo, se o benefício é transformado em instrumento promocional de uma candidatura. É justamente aí que o Berrantômetro começa a chiar. Há, portanto, base para uma crítica forte sobre timing eleitoral, impacto fiscal e uso político de políticas públicas. Cabe lembrar que a cifra estimada já é de mais de R$ 328,9 bilhões.
Fábrica de pesquisas
Não esqueçamos a indústria eleitoral de Paraguaçu: a pesquisa entra pela porta como fotografia e pode sair pela chaminé como narrativa. Amostra, recorte, ponderação, pergunta e margem de erro são instrumentos usados; não posso afirmar a sua robustez estatística.

Não seria uma sátira exagerada, pois ao mostrar uma “fábrica”, chamamos atenção para um risco real: quando o número deixa de informar e passa a ser usado como argumento de autoridade para decretar quem é “viável” e quem deve abandonar a disputa.
Um instituto segura uma prancheta.
Pesquisa — Hoje está 51 a 49.
O comentarista pega o número e transforma:
Comentarista — ACABOU! VIROU! DERRETEU! VOTO ÚTIL AGORA!
O eleitor olha assustado.
Eleitor — Mas não estava dentro da margem de erro?
No segundo turno atual, os levantamentos disponíveis (novamente, importante dizer “levantamento”) mostram justamente uma disputa muito apertada, com resultados dentro ou próximos das respectivas margens de erro, rissssss (UOL Notícias). Mas vale lembrar que esses mesmos institutos erraram suas previsões de “tarologia eleitoral” no 1º turno.
Em Paraguaçu, o comentarista nunca vê apenas um número. Vê “onda”, “colapso”, “virada”, “rejeição consolidada” e, preferencialmente, “voto útil”. A televisão transforma estatística em dramaturgia porque disputa audiência tanto quanto interpreta a política. O problema não está em comentar; está em transformar interpretação em destino inevitável. Quando o comentarista começa a dizer ao eleitor não apenas o que aconteceu, mas em quem ele deveria votar, o berrante já deixou de analisar a boiada e passou a conduzi-la.
Exército digital
Paraguaçu também tem sua cavalaria digital. Só que, em vez de cavalos, ela corre por celulares, grupos, cortes de vídeo e mensagens virais. Janones, o Servo do Molusco, aparece como símbolo dessa política em que narrativa e militância valem tudo: publica, depois apaga; a velocidade das notícias importa tanto quanto os fatos, mesmo que não sejam verdadeiras. O problema não é fazer campanha na internet; isso é parte da democracia contemporânea. O problema começa quando a lógica da guerra eleitoral transforma exagero, distorção e boato em munição aceitável apenas porque “o outro lado também faz”.
E aí a conversa muda de mesa de bar para o “Show do Milhão Eleitoral”.

Molusco — Companheiros! Aqui ninguém fica sem promessa!
Eleitor — E quem paga?
Molusco — O companheiro da Receita explica depois.
Em Sucupira faltava morto para inaugurar o cemitério. No Brasil de Paraguaçu falta dinheiro para inaugurar promessa. Pequeno detalhe: morto não vota; contribuinte paga.
Justiça de venda nos olhos
Onde termina o populismo e começa o ilícito eleitoral?

A Lei das Eleições não proíbe um governo de governar em ano eleitoral. O que ela proíbe é utilizar a máquina pública de determinadas formas para desequilibrar a disputa.
O art. 73, IV, da Lei 9.504/1997 veda o uso promocional, em favor de candidato, da distribuição gratuita de bens e serviços sociais custeados pelo poder público. O § 10 do mesmo artigo proíbe, no ano eleitoral, a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela Administração Pública, salvo hipóteses específicas, como programas sociais autorizados em lei e já em execução orçamentária no exercício anterior (Justiça Eleitoral).
Uma vergonha! Como diz Boris…!
O próprio TSE reafirmou, em 2026, que programa social implementado ou significativamente ampliado no ano eleitoral, sem a execução orçamentária anterior exigida, pode caracterizar conduta vedada (TSE, Temas Selecionados). Mas será que essas promessas não caracterizam, essencialmente, “compra de voto”? Será que o Brasil de Paraguaçu vai transformar essa falácia eleitoral em apenas:
Uma bondade eleitoreira ao povo sem memória! Cadê a picanha?
Na verdade, o que estamos vendo é uma chacota explícita, na cara dos brasileiros: utilizar ideias fantasiosas e promessas mirabolantes para atrair o gado eleitoral. Pois é… a distribuição de benefício público proibida pela lei, o uso promocional da máquina ou o abuso de poder com gravidade suficiente pode, sim, afetar a igualdade das disputas nas eleições!
Mas será que há alguma probabilidade de punição nesta república da democracia seletiva e relativa? Especialistas avaliam que a chance de punição por essas promessas, isoladamente, seria pequena, embora reconheçam espaço para discussão sobre abuso do poder político (Folha de S.Paulo).
A Justiça é cega. O eleitor só quer saber se ela enxerga todo mundo do mesmo jeito.
A turma dos letrados
No camarote intelectual de Paraguaçu, há sempre muita disposição para defender políticas públicas, especialmente quando o dinheiro vem do orçamento alheio. A caricatura não deve transformar professor, artista ou intelectual em inimigos, pois ter opiniões diferentes está no seio da democracia.

O alvo satírico é outro: a contradição de defender continuamente mais Estado, mais incentivo, mais mandato para políticos de estimação, condenados por corrupção, e mais subsídio, sem demonstrar a mesma preocupação com quem financia tudo isso. O problema não é pedir cultura ou universidade; é agir como se dinheiro público nascesse em árvore.
Todos sempre esperando a partilha do espólio público, professores, intelectuais, artistas, atores, influenciadores e celebridades, gritando em coro:
Coro — Mais cultura pública! Mais universidade pública! Mais incentivo público! Tudo pela minha democracia!
Tudo em nome da democracia! Mas a democracia tributária só fica para quem empreende; no final, o custo fiscal do mau uso do dinheiro é o dividendo que chega ao cidadão: uma marmita, um boleto e uma guia tributária.
Contribuinte — Posso ganhar alguma coisa?
Coro dos letrados — Claro. Consciência democrática.
Na República dos incentivos, sempre há alguém defendendo generosamente a utilização do dinheiro dos outros.
A música da boca mole
Na boate eleitoral de Paraguaçu, a turma da música canta liberdade, cultura, democracia e resistência, mas de vez em quando o refrão termina em edital, incentivo ou verba pública. A sátira funciona quando aponta incoerência, não quando criminaliza profissão. Todo artista tem direito de defender suas ideias políticas. Mas o contribuinte também tem direito de perguntar se aqueles que pedem dinheiro público deveriam aceitar algum escrutínio sobre prioridades, resultados e dependência do Estado.

Cantor — Essa próxima música chama-se “Estado, paga meu cachê”.
A plateia aplaude. No fundo, o trabalhador que acorda às 5h:
Trabalhador — Quando eu reclamo de imposto, dizem que sou antidemocrático.
Berrante — TOCA MAIS UMA QUE A CONTA É PÚBLICA!
No capítulo hollywoodiano de Paraguaçu, Wagner Moura aparece como símbolo de uma contradição bastante explorável em sátira: criticar intensamente os Estados Unidos enquanto mantém uma carreira e uma vida ligadas ao ambiente cultural norte-americano. Essa crítica, por si, é legítima; ninguém precisa gostar do país onde trabalha ou mora. O ponto satírico é a distância entre discurso e estilo de vida. Já os recursos da Lei Rouanet vêm alimentando os bolsos, os luxos e os estômagos de “… muito intelectualzinho de m…” W. M.

O cinema dos bastidores
Paraguaçu adora cinema político porque, nos bastidores, roteiro, imagem e poder se misturam com facilidade. A turma do Vorcaro, Okamotto e Vaccari deve funcionar como paródia de uma alegação sob investigação, nunca como sentença.
O humor está justamente no letreiro: “filme ainda sem final”. Em política, histórias mal explicadas viram roteiro instantaneamente; mas numa crônica responsável, investigação continua sendo investigação até aparecerem as provas.

A Veja publicou áudios e relatos atribuídos a um diálogo de Vorcaro sobre o pagamento de R$ 30 milhões, por fora, claro, até nos impostos (IPI por fora e ICMS por dentro), e R$ 145 milhões por dentro, como patrocínio, sempre da forma como o sistema mais gosta, relacionados ao documentário sobre Lula e ao patrocínio do Dark Horse (Veja).
Os captadores de recursos — Essa história dá filme, risss.
Eleitor — Primeiro eu queria saber se dá prova.
A pesquisa e o berrante
E assim termina a temporada de Paraguaçu: todo mundo pede voto “para evitar o pior”. O eleitor deixa de escolher o melhor candidato e passa a votar contra o cenário que mais teme.

O voto útil pode ser uma decisão racional, mas também pode ser o triunfo definitivo do medo sobre a preferência. No curral eleitoral, o berrante muda de mãos, o discurso muda de cor e a placa da porteira é repintada, mas quem entra no curral continua sendo o mesmo eleitor. E assim chegamos ao segundo turno. Na porteira está escrito: “ENTRADA GRATUITA. SAÍDA SUJEITA A IMPOSTOS.”
Molusco sobe no palanque:
Molusco — Brasileiro gosta de direito!
A boiada aplaude.
Molusco — Brasileiro gosta de benefício!
Mais aplausos.
Molusco — Brasileiro gosta de dinheiro!
Aplausos ensurdecedores. Lá no fundo, quase sem voz, o contribuinte levanta a mão:
Contribuinte — E responsabilidade fiscal?
Silêncio. Um assessor cochicha. Alguém grita:
Assessor — Presidente, esse aí não entendeu a campanha.
Outro — Não. Esse aí entendeu demais.
E o berrante recomeça. Pé-de-Meia para cá. Perdão para lá. Passe livre acolá. Benefício daqui. Renegociação dali.
Talvez todos sejam bons programas. Talvez alguns sejam necessários. Talvez outros sejam ruins. O problema democrático surge quando a discussão deixa de ser “esta política é sustentável e justa?” e passa a ser “quantos votos essa medida compra politicamente?”.
Compra no sentido mais antigo do populismo: o Estado promete; o candidato capitaliza; o orçamento espera; e o contribuinte descobre a conta depois.
É aí que aparece o personagem principal desta história. Não Lula. Não Flávio. Não o STF. Não o Datafolha. Nem sequer o berrante. É o sujeito de sempre: o eleitor-contribuinte.
Em Sucupira diziam que política era a arte de inaugurar aquilo que ainda não existia. No Brasil de Paraguaçu, aperfeiçoamos o método: primeiro inauguramos a promessa, depois inauguramos o benefício, depois inauguramos a narrativa, e só depois da eleição inauguramos o boleto.
E o “otário”, na sátira do Berrantômetro, é justamente o cidadão que aceita ser tratado como gado, independentemente de votar em Lula, Flávio ou qualquer outro.
Democracia não pode ser relativa: direito para os amigos e rigor para os adversários deixa de ser Justiça e vira torcida. E dinheiro público não pertence a governo nenhum, pertence ao contribuinte.