Sopa paraguaia eleitoral
No 2º turno, o berrante toca dobrado: pesquisa que vira profecia, a porteira do voto útil e promessa com nome de benefício que chega em casa como boleto.

Quem já viu comitiva pantaneira passar sabe como funciona: o berranteiro vai na ponteira, toca o berrante, e a boiada segue o som. Ninguém pergunta para onde. O gado não lê placa, segue berrante. E até aí, tudo bem: é boi, é o serviço dele.
O problema é quando a comitiva é eleitoral e a boiada somos nós.
No 2º turno, o berrante toca dobrado. Toca a pesquisa, toca o comentarista, toca o grupo de zap da família, toca o influenciador que ontem vendia suplemento e hoje vende candidato. Cada um com seu berrante, todo mundo jurando que sabe o caminho do pasto bom.
Pesquisa — Está 51 a 49.
Comentarista — VIROU! ACABOU! DERRETEU!
Eleitor, coçando a cabeça — Ué… e a margem de erro, foi pra onde?
Pesquisa é retrato, não é profecia. Os mesmos institutos que hoje anunciam o fim do mundo erraram, e não foi pouco, no 1º turno (os números estão aqui no site, na página do erro das pesquisas, instituto por instituto, sem passar pano para ninguém). Mesmo assim, o levantamento entra no estúdio como fotografia e sai como sentença: “fulano não tem chance, vota útil”.
E aí vem a porteira do voto útil, que é a porteira mais bem pintada da fazenda. Em cima dela, a placa: “Vote no menos pior”. O eleitor passa, eleição após eleição, e depois reclama que no curral só tem os mesmos. Ixi… mas quem foi que abriu a porteira, guri?
Agora, o prato principal da temporada: a sopa paraguaia eleitoral. Quem é daqui sabe que sopa paraguaia não é sopa, é bolo. Promessa de campanha é igualzinha: tem nome de benefício e chega em casa como boleto. Na reta final aparece de tudo: perdão aqui, bondade ali, programa novo acolá, sempre anunciado em cima da hora, como se o dinheiro público brotasse em pé de bocaiuva. Do outro lado da cerca, o cardápio é outro, mas a cozinha é parecida: medo servido à vontade, boato quentinho no zap e a jura de que, se o outro ganhar, o Brasil acaba na segunda-feira. Um lado promete o que não diz quanto custa; o outro assusta com o que não consegue provar. E quem paga a conta dos dois é o mesmo sujeito.
A lei, risss, até tenta pôr ordem na comitiva. O art. 73 da Lei das Eleições proíbe usar a máquina pública para desequilibrar a disputa. Mas lei sem fiscal atento é igual porteira sem tramela: está ali só para enfeite. E Justiça que enxerga um lado e é cega para o outro deixa de ser Justiça e vira torcida organizada.
Ê, boiada!
O personagem principal desta história não está no palanque. Não é o candidato da esquerda, nem o da direita, nem o instituto de pesquisa, nem o ministro. É o sujeito que acorda às cinco, pega o ônibus lotado, toma o tereré na pressa e paga imposto até no pãozinho: o eleitor-contribuinte. Ele não é gado. Ele só é tratado como gado, de quatro em quatro anos, por todos os berranteiros.
Por isso o Berrantômetro existe. Não para dizer em quem votar (isso é assunto seu e da sua consciência), mas para mostrar de onde vem cada voto, quanto custou, quem prometeu o quê e quem errou a previsão. Dado oficial, com fonte e data. Do resto, cuida a charge.
No domingo, 25, antes de entrar na fila, faz um favor a si mesmo: desliga o berrante dos outros por um minuto e escuta o seu. Pode ser que ele toque igual ao da pesquisa. Pode ser que não. Mas pelo menos foi você quem tocou.
Boa eleição. E cuidado com a sopa paraguaia, risss.