O carro roubado, o gênio das rachadinhas e o Feitiço de Alckmin
A matemática eleitoral faz as contas, consulta os modelos e, quando abre a garagem, descobre que o carro estava estacionado em outra dimensão.
Acordei no dia seguinte à eleição, tomei café com a família e saí para trabalhar. Abri a garagem e quase caí para trás.
Eu — Cadê meu carro?
Minha esposa — Que carro?
Eu — O carro que eu ia comprar!
Minha esposa — Mas você nem comprou!
Eu — Pois é! Roubaram meu carro do futuro!
É mais ou menos assim que anda a matemática eleitoral brasileira.
O sujeito faz as contas, soma os votos, desconta a abstenção, separa brancos e nulos, consulta os modelos estatísticos e, quando abre a garagem, descobre que o carro estava estacionado em outra dimensão.
Mas calma! O Brasil tem seus gênios.
André Janones, o nosso Einstein do engajamento digital, já deve estar preparando o currículo para assumir o lugar de Mark Zuckerberg.
Afinal, para quem domina a alquimia das redes, transformar curtidas em votos deve ser tão simples quanto converter água em gasolina.
E, se a conta não fechar, chamem o Mister M!
O mágico que revelava os truques dos outros agora teria um desafio muito mais ambicioso: explicar de qual cartola saíram tantos votos e como apareceram justamente onde a matemática parecia ter perdido o endereço.
Porque, até agora, nem Pitágoras, nem Newton, nem o ChatGPT conseguiram convencer o Berrantômetro de que toda reviravolta eleitoral pode ser explicada com meia dúzia de frases sobre o carisma do Painho de Barbinha.
A matemática pode até não ter partido político. Mas, no Brasil, parece que precisa de autorização para fazer perguntas.
O Feitiço de Alckmin
Eis que surge outro personagem: Geraldo Alckmin!
O homem que parece ter encontrado a fórmula da imortalidade política. Já foi adversário, virou aliado e agora protagoniza seu próprio clássico: O Feitiço de Alckmin.
No cinema, em Feitiço de Áquila, os apaixonados nunca conseguiam se encontrar: durante o dia, ela era águia; à noite, ele era lobo.
Na política, nasceu a lenda da maldição de Alckmin: basta virar vice para o titular começar a ouvir os chamados do além!
Com Mário Covas, a história teve um desfecho real. Em Pindamonhangaba, o folclore inventou outro.
Agora, com Lula, já são quase quatro anos e o Painho de Barbinha continua firme!
Será que o feitiço perdeu a validade? Ou está apenas aguardando o quarto mandato para trocar a noite do vice pelo amanhecer do titular?
Por enquanto, Alckmin continua vice. E o galo já está rouco de tanto cantar!
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro atravessa fronteiras, os estrategistas consultam as estrelas, os marqueteiros consultam os algoritmos e Janones provavelmente já está ensinando Zuckerberg a descobrir votos no metaverso.
E o carro roubado?
E o cidadão comum? Continua na porta da garagem, olhando para o espaço vazio e perguntando:
Cidadão — Afinal, cadê meu carro?
A resposta dos especialistas é tranquilizadora:
Especialista — O senhor precisa compreender os movimentos complexos de transferência de votos, a dinâmica das abstenções e as particularidades do comportamento eleitoral.
Cidadão — Tudo bem, doutor. Mas cadê o carro?
Moral da história: resultado eleitoral se respeita. Mas também se estuda, se audita pelos mecanismos legais e se explica com dados verificáveis.
Surpresa estatística não é prova de fraude, assim como confiança institucional não dispensa transparência.
Porque, no Berrantômetro, boi pode até voar na propaganda. Mas, para entrar na contagem, precisa passar pela porteira.
E o carro?
O carro continua desaparecido. Mas Janones já publicou que ele teve 15 milhões de visualizações.
Berrantômetro — Aqui a gente conta os bois. Milagre fica por conta do Mister M.